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4.4.09

JUST A FEST – CHÁCARA DO JOKEY – SÃO PAULO – 22/03/2009

Los Hermanos + Kraftwerk + Radiohead



É difícil colocar no papel uma análise equilibrada de um acontecimento cercado de tanta mística. Isso porque, normalmente, o sujeito que tenta descrevê-lo, esteve lá, e muito provavelmente penou para encontrar razão em meio a tantas emoções geradas em tão curto espaço de tempo. Digo já que foi assim comigo neste dia 22 de março de 2009. Fui atingido como muitos por um estado de transe por boa parte do intervalo de tempo entre 15 step, primeira faixa do brilhante e mais recente disco do Radiohead In Rainbows (e do show), e Creep, primeira faixa da banda a tocar nas rádios pelo mundo, e que nos mandou de volta pra casa com a alma lavada.

O fato é que todo tipo de espera por esse show valeu demais a pena. Os mais de 10 anos em que promessas anuais de que o Radiohead viria finalmente ao Brasil e que não se concretizavam, frustrando fãs, e transformando o tal show em mito. E as quase 5 horas em pé que antecederam o show principal da noite, estas bem mais suportáveis pelos ótimos shows de abertura: Los Hermanos e Kraftwerk.

O show do Los Hermanos por si só já seria um evento digno de nota. Isso porque a banda, que se separou há quase dois anos, e continua separada, saiu da hibernação pra fazer esses dois shows, e apenas eles. E se houve a clara impressão de que o entrosamento já não é mais o mesmo, a banda mostrou o porque de ser a mais aclamada banda brasileira da última década. Empurrada por um público apaixonado (sim, boa parte dos fãs de Radiohead gostam muito de Los Hermanos), a banda desfilou sua classe, seja nas ótimas letras, belíssimos arranjos de metais, ou na grande qualidade vocal de Rodrigo Amarante. Momentos belos, dignos dos tempos áureos da banda, levaram boa parte do público a um delírio nostálgico delicioso, como por exemplo a execução de “O Vencedor”, cantada em uníssono por milhares de fãs possuídos de saudade de ouvir essas canções ao vivo.



O show do Kraftwerk, de estilo absolutamente contrastante ao da banda brasileira, foi regado de fascínio e respeito pelo público presente. A banda pioneira da música eletrônica tocou seus maiores clássicos, e impressionou desavisados pelo impressionante fato de que canções feitas nos anos 60 e 70 soassem tão adequadas em 2009, como só os clássicos conseguem fazer. A performance, com vasto uso de luzes, e até de robôs impressionou a muitos, mas não posso deixar de citar o quanto fiquei fascinado com a capacidade da banda de fazer arranjos de musica eletrônica com elementos puramente tradicionais da musica popular. O fato é que Kraftwerk rompe o limite entre musica Acústica e musica eletrônica, não por usar instrumentos acústicos, mas por pensar seus arranjos de maneira mais tradicional, se aproximando muito mais de fazer “música com sintetizadores” do que “musica eletrônica” apenas.

Mas a verdade é que, os shows de abertura, por melhores que tenham sido, foram apenas um prelúdio pro que viria depois, como não podia deixar de ser.



E apesar de falhas da organização do evento, e de algumas pessoas presentes, que comprovam que brasileiro não consegue viver em sociedade, nem com 5, nem com 30 mil, nem com 150 milhões ao seu lado, nada tiraria o brilho do show principal.

Quando o Radiohead subiu ao palco para fazer sua última apresentação no Brasil, era evidente a sensação de quem estava ali de que presenciava uma página da história da música sendo feita.

Como é de costume, o setlist do show surpreendia a cada canção, já que a banda varia seus setlists a cada apresentação, impossibilitando até o mais analítico fã de prever quais canções seriam tocadas. E pode-se dizer que foi raro o fato de terem tocado canções de todos os discos lançados ate hoje pela banda. E a mistura de canções de diferentes estilos, de discos de diferentes momentos históricos, garantiu uma variedade musical assombrosa.

Seja em canções dos discos mais rebuscados, como a espetacular “Pyramid Song” ou a performática “There There”, quando a banda toda veio à frente do palco tocar tambores e percussões, ou nas de enorme sucesso do meio dos anos 90, como “Creep”, ou “Fake Plastic Trees”, que raramente é tocada por eles ao vivo, mas proporcionou um dos mais belos momentos da noite. Houve ainda o obrigatório espaço às canções do último disco, In Rainbows, que foi executado integralmente, e de algumas canções do genial “Ok Computer”, obra prima da banda, e melhor disco lançado nas últimas 3 décadas.



Aliás, veio de umas das canções do Ok Computer, “Paranoid Android”, o momento que para mim foi o mais belo de toda a noite. O público, já em êxtase integral, continuou cantando os versos da canção depois dela terminar, sendo acompanhados por uma perplexa banda, e por acompanhamento de violão e backing vocal pelo brilhante Thom Yorke, levando até os menos sensíveis às lágrimas.

O que mais me impressionou no entanto foi a espantosa precisão e capacidade individual dos integrantes, que fizeram questão de ter cuidado com cada nota que tocaram. Confesso que esperava uma banda menos preocupada com a precisão, mais aberta a improvisos e até erros. Fiquei impressionado com a fidelidade aos arranjos que eles buscaram.

Digo isso porque todos os arranjos dos discos da banda são sempre extremamente complexos e cheios de detalhes que jamais esperava ouvir ao vivo. No entanto a preocupação com cada som me deixou verdadeiramente impressionado. Os integrantes deixavam seus instrumentos originais em certos momentos para tocar percussão, ou sintetizador, ou o que fosse necessário para atingir o máximo do palco sonoro dos discos, mas sem se valer das alterações de arranjo típicas que dão o ar de apresentação ao vivo que não pode faltar.

A grande lição é perceber o equilíbrio que a banda atingiu. Pois, apesar de ter discos cheios de elementos de musica eletrônica, forte edição de áudio, eles não usaram isso de muleta para deixar de lado a competência da performance. Mesmo se usando de recursos típicos da produção musical dos anos 2000, como edição de áudio, e efeitos virtuais, eles têm a completa capacidade de subir num palco e reproduzir ao vivo todos os sons criados em estúdio ao vivo.

Isso só comprova o que já era sabido: o Radiohead é a vanguarda da musica. É seu presente, e seu futuro. Porque mescla características de bandas de décadas passadas e que infelizmente se perderam hoje em dia, como o cuidado e a competência de tocar ao vivo com extrema precisão, mas usando pra si todos os recursos que o áudio digital permite na criação.

Por este motivo, posso apenas dizer que foi uma honra e um privilégio ter estado lá, no meio de 30 mil hipnotizados fãs, presenciando a maior banda do planeta Terra tocar.